Ao longo de mais de uma década, o PDeC Elas consolidou-se como uma das principais iniciativas do IBGC para ampliar a presença feminina em conselhos e fortalecer a diversidade como parte essencial da boa governança.
Em entrevista ao Blog IBGC, Adriana Muratore, diretora voluntária do programa, reflete sobre a evolução da participação das mulheres nos espaços de decisão, os desafios para transformar presença em influência efetiva e a importância de uma jornada que combina formação, mentoria, networking e construção de comunidade.
BLOG IBGC: Após mais de uma década acompanhando o PDeC Elas, quais mudanças mais significativas você percebe na presença e na atuação das mulheres nos conselhos?
Adriana Muratore: A mudança mais significativa foi a evolução de uma discussão centrada apenas na presença para uma compreensão muito mais ampla sobre a qualidade da contribuição das mulheres nos conselhos. Hoje temos um contingente crescente de profissionais altamente qualificadas, com experiência executiva, visão estratégica e preparo para atuar em decisões complexas. Elas não chegam apenas para ocupar uma cadeira, mas para influenciar agendas, ampliar perspectivas, qualificar decisões e contribuir efetivamente para a longevidade das organizações.
Também avançamos na forma como essas profissionais navegam pelo ecossistema de governança. A contribuição qualificada em diferentes temas e setores gera reconhecimento, fortalece relacionamentos e amplia redes de confiança. Em conselhos, o networking não se constrói apenas pela proximidade, mas pela relevância da contribuição, e esse é um fator fundamental para a continuidade e a evolução dessa trajetória.
Hoje, cerca de 60% das PDeCquianas ocupam assentos em conselhos de administração. É um resultado muito relevante, sobretudo porque o programa não assume qualquer obrigação de colocação profissional. O que oferecemos é preparação de alto nível, exposição qualificada e acesso a uma comunidade madura e experiente. A combinação entre conhecimento, reputação, convivência e networking cria condições concretas para que essas mulheres sejam reconhecidas e consideradas pelo mercado.
O PDeC é, ao mesmo tempo, parte e expressão dessa transformação. Saímos de turmas de 10 a 15 profissionais convidadas para uma comunidade de quase 300 PDeCquianas, selecionadas entre centenas de candidatas a cada edição, além de uma rede de aproximadamente 150 mentores e mentoras.
Em 2025, realizamos a primeira edição do PDeC Global Board Program, em Yale, reunindo 33 participantes, entre PDeCquianas de diferentes turmas e mentores do programa. Em abril de 2027, realizaremos a segunda edição, em Veneza, uma cidade cuja história oferece um extraordinário campo de reflexão sobre governança. Isso porque a República de Veneza, uma das mais longevas da história, estruturou sua governabilidade por meio de um sofisticado sistema de conselhos e de distribuição de poder, oferecendo referências históricas valiosas sobre colegialidade, equilíbrio institucional e longevidade.
Toda essa evolução do PDeC resulta da dedicação extraordinária de muitos voluntários e voluntárias e do compromisso consistente do IBGC e das entidades que sustentam o programa. É uma construção verdadeiramente coletiva, que amadureceu sem perder sua essência e eleva continuamente seu rigor, sua governança e sua ambição.
Qual você considera ser o principal desafio para os próximos anos para mulheres com atuação em conselhos?
O principal desafio é transformar uma presença crescente em influência efetiva, qualificada e recorrente. Não basta ampliar o número de mulheres nos conselhos; é necessário assegurar que estejam verdadeiramente preparadas para participar dos espaços em que as decisões mais relevantes são construídas, incluindo a presidência dos conselhos, a liderança de comitês e os processos de sucessão.
A preparação para um conselho exige mais do que uma trajetória executiva de sucesso. Exige a compreensão profunda do papel do conselheiro, de seus deveres fiduciários, de seus limites e de sua responsabilidade diante de todos os acionistas e stakeholders. Exige também uma mudança de mindset: sair da lógica da execução para contribuir por meio de perguntas, discernimento, visão de longo prazo e capacidade de influenciar sem exercer autoridade executiva.
Por isso, o preparo proporcionado pelo PDeC é tão abrangente. O programa combina um curso com fundamentos de governança corporativa e mercado de capitais, simulações de situações reais de conselho, exposição a diferentes perspectivas, mentoria altamente qualificada com mentores e mentoras que são referências no mercado, eventos temáticos e convivência com uma comunidade madura, formada por profissionais e mentores com ampla experiência em governança. Essa vivência permite exercitar não apenas conhecimento técnico, mas julgamento, escuta, coragem, independência e capacidade de atuar construtivamente em ambientes complexos.
Também precisamos avançar simultaneamente sobre a demanda e sobre a oferta. Acionistas, conselhos e empresas de busca devem ampliar deliberadamente seus mapas de talentos e seus critérios de escolha. Ao mesmo tempo, as profissionais precisam manter uma jornada permanente de aprendizado, exposição, construção de repertório e relacionamento.
Nos próximos anos, nosso avanço será medido não somente por quantas mulheres chegaram aos conselhos, mas pela relevância de sua contribuição, pela permanência, pela recorrência dos convites e pelo impacto produzido na qualidade da governança e na longevidade das organizações.
Com a abertura das inscrições para uma nova turma, que mensagem você deixaria para mulheres que desejam ampliar sua contribuição para a governança e estão considerando participar do programa?
É com muita alegria, gratidão e entusiasmo que iniciamos mais uma edição do PDeC Elas. Cada nova turma renova a energia do programa, amplia nossa comunidade e reafirma nossa confiança no poder transformador de mulheres muito bem-preparadas para contribuir com a governança brasileira.
Quero convidar mulheres de todas as regiões do país e das mais diferentes trajetórias: executivas de empresas familiares, acionistas, empreendedoras, presidentes, profissionais C-level e lideranças de companhias de diferentes setores, portes e geografias. A riqueza do PDeC nasce justamente do encontro entre experiências distintas, unidas pela ambição de aprender, contribuir e exercer a governança com responsabilidade e excelência.
Venham preparadas para uma jornada exigente, mas também profundamente estimulante. O PDeC não é um atalho nem uma promessa de acesso automático a um conselho. É uma oportunidade de aprofundar conhecimentos, desenvolver o mindset de conselheira, participar de simulações, ampliar perspectivas e conviver com uma comunidade madura e experiente em conselhos.
O programa combina formação, experiências complementares de aprendizagem e uma trilha estruturada de mentoria com referências do mercado. Mas seu maior valor está na qualidade das relações construídas, na exposição a diferentes visões e na força de uma comunidade que aprende, compartilha e cresce conjuntamente.
O Brasil precisa, acima de tudo, de governança de alta qualidade, e conselhos mais diversos são fundamentais para alcançá-la. Diversidade e excelência não são agendas concorrentes: quando tratadas com seriedade, elas se fortalecem mutuamente e contribuem para organizações mais relevantes, resilientes e longevas.
Às mulheres que estão considerando essa jornada, minha mensagem é muito simples: inscrevam-se, tragam sua experiência, sua curiosidade e sua vontade de contribuir. Vocês serão muito bem-vindas.
As inscrições para participar da próxima turma do PDeC Elas vão até dia 2 de novembro de 2026, acesse aqui.