Governança esportiva não é custo, é investimento, defende Fernanda Fossati

Sócia do escritório TozziniFreire conversou com o Blog IBGC sobre o tema e seus impactos na sociedade

  • 09/03/2026
  • Victoria Andrade
  • Bate-papo

A crescente demanda por transparência e profissionalização tem colocado a governança no centro das discussões sobre o futuro do esporte no Brasil. Em um setor marcado por forte visibilidade pública e impacto social relevante, adotar boas práticas de gestão é essencial para fortalecer a credibilidade a longo prazo.

Para aprofundar esse tema, o Blog IBGC conversou com Fernanda Fossati, sócia de M&A e governança corporativa da TozziniFreire Advogados. Confira a seguir.

BLOG IBGC: Quais são suas recomendações para que uma organização esportiva seja bem administrada e socialmente responsável?

Fernanda Fossati: A gestão no esporte começa pelos mesmos fundamentos que sustentam qualquer organização longeva: propósito claro, estruturas decisórias bem definidas e responsabilidade na tomada de decisão. No caso das organizações esportivas, isso se traduz em separar com clareza os papéis entre gestão executiva e instâncias de supervisão, adotar regras transparentes de prestação de contas e garantir controles internos efetivos.

A dimensão social também é central. Organizações esportivas exercem um papel relevante na formação de valores, na inclusão e no desenvolvimento de comunidades. Por isso, responsabilidade social não deve ser tratada como um projeto isolado, mas integrada à estratégia — desde políticas de integridade até iniciativas voltadas à base, à diversidade e ao impacto positivo no entorno em que atuam.

Quais aprendizados do mundo corporativo podem ser aplicados ao esporte para fortalecer sua credibilidade e sustentabilidade?

Um dos principais aprendizados é que governança não é custo, é investimento. No mundo corporativo, organizações que estruturam seus órgãos corporativos com clareza de alçadas e competências, processos decisórios claros e mecanismos de controle conseguem atravessar crises com mais resiliência — e ele vale para o esporte.

Outro ponto fundamental é a gestão de dados, planejamento e visão de longo prazo, buscando afastar decisões reativas. Transparência, avaliação contínua de riscos e alinhamento entre estratégia, orçamento e execução são práticas consolidadas no ambiente corporativo e absolutamente aplicáveis ao esporte, especialmente para fortalecer a confiança de patrocinadores, investidores e da sociedade.

Quais competências você considera essenciais para formar lideranças preparadas para o ambiente esportivo?

Mais do indicar competências específicas que poderiam ser verificadas na gestão esportiva, entendo que cabe destacar algumas que contribuem para uma governança corporativa efetiva e perene. Ética e integridade, por exemplo, são pressupostos básicos de qualquer gestão e devem fundamentar todas as ações independentemente da posição no organograma.

Com o olhar sobre governança, ganham relevância atributos como capacidade de diálogo e escuta qualificada, que permitem lidar com múltiplos públicos e com as pressões de curto e longo prazo. Além disso, compreensão da estrutura como um todo e visão sistêmica contribuem para a perenidade das estruturas de governança, bem como para a efetividade dos níveis de controle de riscos. Não são competência específicas e esperadas apenas a um setor, justamente porque buscam fortalecer a estrutura de governança que pode e deve ser aplicada em todos os segmentos, inclusive no esportivo, apoiam decisões mais estruturadas, transparentes e alinhadas à estratégia.

Como as lideranças podem equilibrar as expectativas dos múltiplos públicos de interesse na governança esportiva (ex: atletas, patrocinadores e torcedores) em uma gestão eficaz e ética?

O equilíbrio começa pelo reconhecimento de que os interesses dos diferentes públicos nem sempre serão convergentes. Nesse contexto, os princípios da equidade e da transparência, previstos no Código das Melhores Práticas do IBGC, oferecem diretrizes objetivas: tratar os stakeholders de forma justa, considerando seus direitos, deveres, necessidades e expectativas legítimas, e assegurar clareza na comunicação de critérios e decisões.

Uma governança eficaz define prioridades estratégicas, estrutura processos decisórios e estabelece mecanismos de prestação de contas. Quando há critérios claros e divulgação adequada de informações, mesmo decisões difíceis tendem a ser mais compreendidas. A ética, nesse cenário, tem o papel de fundamentar escolhas com coerência, previsibilidade e responsabilidade institucional.

Somos conhecidos como o país do futebol. No entanto, em 2025, o Brasil registrou seu pior índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, o IPC (a 107ª posição entre os 180 países avaliados). Como você acredita que a governança corporativa possa mudar essa percepção, especialmente no esporte?

Transparência exige divulgação adequada de informações e critérios decisórios claros. Equidade pressupõe tratamento justo aos diferentes públicos, respeitando direitos e expectativas legítimas. Integridade deve orientar condutas e prevenir conflitos de interesse. Sustentabilidade amplia o foco para além do resultado imediato, considerando impactos econômicos, sociais e reputacionais no longo prazo. E accountability assegura que decisões sejam justificadas e que haja responsabilização quando necessário.

Ao internalizar esses princípios, organizações esportivas podem fortalecer sua credibilidade e contribuir para a construção de uma cultura institucional mais madura. Em um país em que o esporte tem grande relevância, avanços consistentes em governança esportiva têm potencial de impactar positivamente não apenas o setor, mas também a percepção popular sobre ética e gestão. 

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