À medida que dados e inteligência artificial ganham espaço nas decisões empresariais, cresce também a responsabilidade das lideranças de orientar a inovação com ética, propósito e visão de longo prazo.
Nesta entrevista ao Blog IBGC, Frank Meylan, sócio-líder de Tecnologia, Transformação Digital e Inovação da KPMG no Brasil e na América do Sul, patrocinadora do 27º Congresso IBGC, analisa os desafios de integrar tecnologia, estratégia e cultura sem perder de vista o papel insubstituível das pessoas.
O executivo também destaca práticas de governança capazes de transformar inovação em valor sustentável e confiança para as organizações.
BLOG IBGC: O tema do 27º Congresso IBGC é "O ser humano na liderança da transformação". Na sua visão, qual é o maior desafio das lideranças para equilibrar tecnologia, inovação e o fator humano nas decisões?
Frank Meylan: O maior desafio é transformar tecnologia em valor para o negócio sem perder a interação e responsabilidade do ser humano na execução das atividades. Dados e inteligência artificial ampliam nossa capacidade de analisar cenários, antecipar riscos e ganhar eficiência, mas a liderança continua responsável por definir propósito, critérios éticos e impactos aceitáveis. Isso exige integrar a agenda tecnológica à estratégia, à cultura e ao desenvolvimento das pessoas desde o início, e não apenas na implantação. Líderes precisam criar segurança para experimentar, preparar profissionais para novas formas de trabalho e preservar mecanismos de supervisão e responsabilização. Na prática, o equilíbrio ocorre quando a inovação aumenta a capacidade humana, em vez de simplesmente substituí-la, e quando cada decisão combina evidências, julgamento, escuta e visão de longo prazo.
Estamos vendo que decisões são cada vez mais orientadas por dados e inteligência artificial. O que continua sendo insubstituível na liderança humana na sua avaliação e que se conecta ao trabalho na sua organização hoje?
Permanecem insubstituíveis o julgamento, a responsabilidade e a capacidade de compreender contexto. A inteligência artificial pode identificar padrões, recomendar alternativas e acelerar análises; não pode, porém, assumir a responsabilidade moral por uma escolha, construir confiança ou mobilizar pessoas em torno de um propósito comum. Na KPMG, tratamos a IA como uma tecnologia centrada no ser humano: ela deve ampliar a criatividade, a produtividade e a qualidade do trabalho, apoiada por princípios de segurança, transparência, equidade e supervisão humana. Cabe à liderança fazer as perguntas difíceis, reconhecer limites, administrar interesses conflitantes e explicar decisões com clareza. Em um ambiente de transformação contínua, liderar não é apenas escolher o caminho tecnicamente mais eficiente, mas assegurar que ele seja ético, inclusivo e coerente com os valores da organização e com o interesse público.
Que práticas de governança você considera essenciais para que as organizações consigam se transformar sem perder consistência nas decisões?
A transformação consistente exige uma governança que combine direção clara com capacidade de adaptação. Considero essenciais: responsabilidades bem definidas entre conselho, executivos e áreas de controle; critérios transparentes para priorizar investimentos; gestão integrada de riscos; e indicadores que acompanhem não só retorno financeiro, mas também adoção, impacto humano, segurança e sustentabilidade. No caso da inteligência artificial, isso inclui inventário de soluções, classificação por risco, validação de dados e modelos, supervisão humana, gestão de terceiros e protocolos de resposta a incidentes. A governança também precisa ser multidisciplinar, reunindo tecnologia, negócio, jurídico, riscos, ética e pessoas. Mais do que criar novas instâncias, é necessário incorporar esses critérios ao processo decisório e revisá-los continuamente. Assim, a organização preserva coerência e confiança sem transformar governança em barreira à inovação.
Que tipo de debate considera indispensável para quem atua com governança hoje?
O debate indispensável é sobre como distribuir poder, responsabilidade e valor em uma economia cada vez mais orientada por dados e inteligência artificial. Não basta discutir o que a tecnologia pode fazer; é preciso decidir o que ela deve fazer, em quais condições e com quais salvaguardas. Isso envolve transparência, privacidade, vieses, explicabilidade, segurança, propriedade intelectual, impacto sobre o trabalho e responsabilidade por decisões automatizadas. Conselhos e lideranças também precisam discutir como medir o valor real da inovação, evitar iniciativas fragmentadas e preparar pessoas para um modelo no qual humanos e agentes digitais atuarão de forma integrada. Governança, hoje, deve criar confiança para inovar: proteger direitos e reputação, sem bloquear experimentação responsável e geração de valor sustentável.
*Este texto foi produzido pela KPMG, patrocinadora ouro do 27° Congresso IBGC. Seu conteúdo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.