Em 2014, o IBGC lançou o Programa Diversidade em Conselho Elas (PDeC Elas), iniciativa que promove a diversidade de gênero na governança corporativa. Este ano o instituto anuncia a 10ª turma do programa, celebrando 10 anos dedicados a impulsionar a presença feminina em conselhos.
Jandaraci Araújo, participante da 5º turma, conversou com o Blog IBGC para falar sobre a sua experiência na iniciativa.
BLOG IBGC: Durante sua participação, quais foram os aprendizados mais relevantes que você considera fundamentais para atuar em conselhos?
Jandaraci Araújo: Durante minha participação no PDeC Elas em 2020, vivi um processo muito transformador de aprendizado e fortalecimento pessoal e coletivo. Um dos aprendizados mais relevantes foi compreender, de forma prática, o papel estratégico dos conselhos como espaços de tomada de decisão, incidência política e construção de caminhos mais justos e diversos dentro das organizações.
Aprendi que atuar em conselhos exige, antes de tudo, escuta qualificada, visão sistêmica e responsabilidade coletiva. Não se trata apenas de opinar, mas de analisar contextos, dados, impactos e riscos, sempre considerando o longo prazo e o compromisso com a missão institucional.
Outro aprendizado fundamental foi a importância da diversidade e da representatividade nesses espaços. Entendi que a presença de mulheres, especialmente mulheres negras, indígenas e de diferentes territórios, não é simbólica — ela transforma a qualidade das decisões. O programa reforçou em mim a consciência de que ocupar esses espaços é também um ato político e de responsabilidade com quem veio antes e com quem ainda virá.
O PDeC Elas também me fortaleceu em temas como governança, ética, transparência, gestão de conflitos e comunicação assertiva. Aprendi a me posicionar com mais segurança, a discordar de forma construtiva e a sustentar argumentos com clareza e firmeza, sem abrir mão do diálogo.
Por fim, um aprendizado essencial foi reconhecer o valor da rede. Entendi que ninguém atua sozinha em conselhos: a troca entre pares, o apoio mútuo e a construção coletiva são fundamentais para ampliar impacto, fortalecer decisões e seguir avançando, mesmo diante dos desafios.
Esses aprendizados seguem comigo até hoje e são a base da minha atuação em espaços de governança e liderança.
Olhando para o futuro, de que maneira o programa influenciou seus próximos passos como conselheira?
Olhando para o futuro, o PDeC influenciou diretamente meus próximos passos como conselheira ao me preparar, técnica e emocionalmente, para ocupar espaços de governança com mais segurança, clareza de propósito e consciência do meu papel estratégico. A formação ampliou meu repertório, fortaleceu minha autoconfiança e me ajudou a enxergar os conselhos como espaços possíveis, legítimos e necessários para a minha atuação.
Após a conclusão do programa, as oportunidades se ampliaram de forma concreta. Passei a ser mais reconhecida, indicada e convidada para espaços de decisão, justamente porque o programa trouxe visibilidade, credibilidade e uma base sólida de conhecimentos em governança, diversidade e estratégia. Isso me permitiu acessar redes antes restritas e dialogar de igual para igual em ambientes tradicionalmente pouco diversos.
O programa também influenciou minha decisão de seguir investindo na formação contínua e na construção de uma trajetória alinhada aos meus valores. Passei a olhar para cada oportunidade com mais criticidade, entendendo onde posso gerar impacto real e contribuir de forma responsável e ética.
Hoje, sigo meus próximos passos como conselheira com a certeza de que ocupar esses espaços não é apenas uma conquista individual, mas parte de um compromisso coletivo de transformação. O PDeC foi um divisor de águas nesse caminho, abrindo portas e ampliando horizontes para uma atuação mais estratégica, consciente e comprometida com o futuro.
De que forma o convívio com outras participantes — mulheres em diferentes estágios da carreira — agregou à sua jornada?
O convívio com outras participantes, mulheres em diferentes estágios da carreira, foi um dos aspectos mais potentes da minha jornada no PDeC Elas. Estar em um espaço composto por mulheres com trajetórias, vivências e desafios diversos ampliou profundamente minha visão sobre liderança, governança e sobre os muitos caminhos possíveis para chegar aos conselhos.
Aprendi muito tanto com as mulheres que já ocupavam posições de liderança e conselhos quanto com aquelas que estavam iniciando ou reposicionando suas trajetórias. Essa troca intergeracional e interseccional trouxe aprendizados práticos, inspiração e, sobretudo, pertencimento. Ver outras mulheres avançando, questionando e se fortalecendo me ajudou a reafirmar que não estamos sozinhas e que o crescimento é coletivo.
O convívio também criou um ambiente de apoio, escuta e confiança, onde foi possível compartilhar inseguranças, desafios e conquistas sem julgamento. Isso fortaleceu minha autoconfiança e me ensinou o valor da construção de redes sólidas, baseadas na colaboração e não na competição.
Além disso, esse espaço de troca me mostrou que cada mulher carrega saberes únicos, e que a diversidade de experiências enriquece as decisões e amplia o impacto nos espaços de governança. Essa vivência segue influenciando minha atuação até hoje, lembrando-me de que caminhar junto, trocar e apoiar outras mulheres é parte essencial da minha jornada como conselheira e liderança.
De que maneira o programa contribuiu para fortalecer sua confiança e posicionamento como conselheira?
O programa foi fundamental para fortalecer minha confiança e meu posicionamento como conselheira, mas a mentoria teve um papel decisivo nesse processo. Meu mentor foi muito além da orientação técnica: ele esteve presente, acreditou em mim e atuou como um verdadeiro sponsor, abrindo caminhos, ampliando visibilidade e validando minha capacidade em espaços estratégicos.
Esse apoio constante, feito de escuta, incentivo e ação concreta, fez toda a diferença na forma como passei a me posicionar e ocupar os espaços de decisão. Ter alguém que não apenas orienta, mas que aposta e caminha junto, foi determinante para consolidar minha atuação como conselheira com mais segurança, legitimidade e propósito.
Como os homens que atuam em conselhos podem se posicionar para garantir que a diversidade seja realmente efetiva nas organizações?
Os homens que atuam em conselhos têm um papel fundamental para que a diversidade seja realmente efetiva nas organizações. Isso começa ao assumir a diversidade como uma responsabilidade estratégica, e não apenas como um discurso.
É essencial que se posicionem como aliados ativos, revisando critérios de indicação, sucessão e tomada de decisão, além de usar seu privilégio para abrir portas, indicar mulheres diversas e atuar como sponsors. Da mesma forma, a escuta genuína e o compromisso com ambientes inclusivos são indispensáveis.
Diversidade só se consolida quando há coerência entre discurso e prática, com inclusão integrada à governança e à estratégia das organizações.