Em um contexto em que múltiplos papéis em famílias empresárias se sobrepõem, a adoção de boas práticas de governança torna-se fundamental para organizar decisões, preservar o legado e assegurar a longevidade dos empreendimentos.
Para aprofundar essa discussão, o Blog IBGC conversou com a conselheira Leticia Reichert, que compartilhou reflexões sobre os principais desafios enfrentados pelas famílias empresárias, o papel dos conselhos na prevenção de conflitos e no suporte à evolução dos negócios, além de outros temas. Confira a seguir.
BLOG IBGC: Quais são os principais desafios que as famílias empresárias enfrentam ao conciliar relações familiares com estruturas formais de governança?
Leticia Reichert: Empresas de controle familiar enfrentam desafios únicos que ultrapassam os desafios da gestão do negócio pois aspectos ligados às relações familiares e à propriedade acabam por se entrelaçar com a empresa, em maior ou menor grau, desencadeando uma dinâmica complexa, que precisa ser bem administrada e não pode ser negligenciada.
Neste contexto, membros de uma família empresária podem vir a exercer diferentes funções e papéis, que demandam diferentes perspectivas, responsabilidades e formas de agir.
Estruturas formais de governança no sistema da família, da empresa e da propriedade ajudam estabelecer procedimentos, regras e diretrizes de funcionamento, bem como a organizar e regular as relações e atribuições dos membros envolvidos, sejam estes familiares ou não, de forma que existam fóruns específicos para conduzir e tratar cada tipo de assunto.
Apesar de essencial para a longevidade e o sucesso do negócio ao longo do tempo, estruturar uma boa governança é um desafio para muitas famílias empresárias.
Dentre os desafios frequentemente observados, destaco:
• Falta de clareza sobre o que de fato é a governança e como ela pode ser um fator de sucesso para empresas de qualquer porte;
• Dificuldade de alinhar e definir com clareza as estruturas que fazem sentido em cada um dos sistemas (empresa, família e propriedade) e os possíveis papéis e responsabilidade dos membros da família nos órgãos de governança que venham a ser estruturados;
• A preparação adequada dos membros da família para serem acionistas responsáveis e atuarem em favor do desenvolvimento da empresa familiar;
• Disciplina para organizar as discussões nos fóruns adequados, minimizando conflitos e não deixando de tratar dos temas pertinentes a família, gestão e propriedade para assegurar a longevidade do empreendimento familiar;
• Dar importância também a implementação de estruturas e boas práticas na dimensão da família e da propriedade, que usualmente acabam preteridos pois o foco das atenções tende a girar em torno da empresa familiar.
A adoção de boas práticas de governança proporciona a estruturação de processos mais eficientes, transparentes e responsáveis, equilibrando os interesses dos envolvidos e possibilitando a construção de um ambiente onde melhores decisões são tomadas.
Mas é essencial que as estruturas de governança sejam implementadas sem seguir fórmulas prontas, levando em conta as características, as necessidades e o momento da empresa de controle familiar.
Governança não é apenas para grandes empresas - se aplica a empresas de qualquer porte e qualquer natureza jurídica. Empresas menores podem ter uma governança mais simplificada, com menor formalidade, que faça sentido dentro do seu contexto organizacional.
Como conselhos de administração podem atuar de forma complementar com membros da família empresária para prevenir conflitos e apoiar a longevidade dos negócios?
Em empresas de controle familiar as contribuições de um conselho, seja ele de administração ou consultivo, variam, a depender do estágio de maturidade da governança corporativa.
Independentemente da forma como estruturados ou do seu grau de maturidade, ter na composição conselheiros independentes agrega muito valor para as empresas familiares.
A visão externa, de quem não está mergulhado no dia a dia dos negócios, assegura que opiniões imparciais e novas perspectivas sejam levadas em conta por quem conduz a empresa e pelos tomadores de decisão.
Quando no início da jornada, o conselho apoia a introdução e amadurecimento de boas práticas de governança corporativa e ajuda os sócios a entenderem seu papel e qual o fórum adequado para tratar cada tipo de assunto, sempre respeitando os valores e a cultura da família.
Em empresas cuja governança já está mais madura, o conselho aporta o olhar que desacomoda a gestão e a incentiva a seguir evoluindo, aprimorando suas práticas e processos.
Um conselho que em sua composição conta com conselheiros independentes, pode endereçar temas relevantes que em uma empresa de controle familiar frequentemente acabam deixados de lado, seja pela falta de clareza em relação a sua pertinência, seja pela dificuldade em abordar assuntos sensíveis, a exemplo da sucessão e a remuneração de executivos membros da família controladora.
Também a imparcialidade e neutralidade aportada por conselheiros independentes permite que as discussões que no âmbito do conselho não sejam influenciadas por questões pessoais e relacionamentos familiares, de forma que tenham maior coerência e visem primeiramente o bem do negócio.
Um conselho bem estruturado e funcional proporciona um alinhamento dos objetivos da família com os desafios da empresa em seu mercado de atuação, para que boas decisões sejam tomadas, tanto no curto prazo como também mirando na perpetuidade do negócio, ajudando a empresa a promover as mudanças necessárias, sem comprometer seus valores e seu legado.
Que tendências você observa no amadurecimento da governança em famílias empresárias no Brasil, especialmente em relação à sucessão?
As empresas familiares cada vez mais cedo têm despertado para a importância de se organizar e se estruturar para dar conta de sustentar seus negócios ao longo do tempo, em um contexto de constante transformação e desafios. Soma-se a isso o desejo de que membros das gerações seguintes se interessem pelos negócios da família e queiram com estes se engajar e dar continuidade a seu legado, seja atuando diretamente na empresa, seja apenas como sócios ou ainda em alguma estrutura de governança.
O entendimento de que governança é para empresas de qualquer porte parece estar cada vez mais difundido, em grande parte pelo trabalho desenvolvido pelo IBGC e outras instituições que disseminam conhecimento nesse sentido. E com frequência essa ideia tem sido levada para as empresas pelas gerações mais jovens quando se aproximam dos negócios familiares.
Esse contexto oportuniza uma maior abertura por parte das empresas para iniciar a jornada de governança, que via de regra começa pela governança corporativa. A constituição de um conselho, consultivo ou de administração, costuma ser uma das primeiras etapas dessa construção, que com maior frequência já conta com a participação de conselheiros independentes em sua composição desde o primeiro momento.
No tocante ao tema da sucessão, de maneira geral se percebe por parte das famílias empresárias muita resistência e receio. Ainda que haja um entendimento maior sobre a importância de planejar e se preparar adequadamente para este momento, que não ocorre apenas na gestão dos negócios, mas também na propriedade e no âmbito da família empresária, na maioria das famílias empresárias o assunto costuma ser evitado e adiado até que efetivamente seja uma decisão que repentinamente se impõe.
Idealmente a sucessão deve ser um processo planejado, e não um evento para o qual ninguém estava preparado. Sucessão deve ser vista como continuidade, e não como uma mera transição ou transferência de patrimônio, de direitos e responsabilidades, de uma geração para a próxima.
Em especial a sucessão no âmbito da empresa deve ser planejada considerando o melhor para os negócios. Não se trata de passar a liderança para a geração seguinte, mas sim, de assegurar que o sucessor seja aquele que tem o perfil mais adequado para conduzir o negócio dados seus desafios atuais e futuros, sendo ele um familiar ou não.
E caso um executivo não familiar venha a ser escolhido, isso não significa nenhum demérito para a família empresária, cujos membros devem estar
preparados para atuar no conselho, exercer seu papel enquanto sócios ou futuros sócios e desbravar outros caminhos com os quais tenham maior afinidade e desejo de atuar.
Cabe à geração que está no comando dos negócios, que detém o patrimônio e lidera a família, criar as condições e preparar a geração seguinte para que se aproprie legitimamente de seu papel e ocupe seu espaço.