A segunda edição da publicação Governança corporativa para startups e scale-ups será lançada pelo IBGC durante o Rio Innovation Week, um dos principais eventos de inovação da América Latina. Atualizado para refletir as transformações do ecossistema empreendedor nos últimos anos, o material reúne orientações práticas para apoiar startups em diferentes estágios de maturidade.
Nesta conversa com o Blog IBGC, Líria Knutti, coordenadora do Grupo de Trabalho de Governança para Startups & Scale-ups, compartilha os bastidores da publicação, os principais aprendizados do processo e a importância de fortalecer a agenda de governança no universo da inovação e da nova economia.
BLOG IBGC: Você coordenou junto à equipe de pesquisa do IBGC a atualização do caderno e liderou o comitê de pessoas responsável pela elaboração da segunda edição desta publicação. Quais foram os principais desafios e aprendizados ao longo do processo de construção do material?
Líria Knutti: O processo de construção desta segunda edição trouxe valiosos aprendizados coletivos. O trabalho foi conduzido de forma voluntária por um Grupo de Trabalho (GT), mas o grande diferencial e, ao mesmo tempo, o principal desafio foi coordenar e sintetizar uma enorme diversidade de perspectivas especializadas.
Contamos com a colaboração ativa de diversas comissões temáticas do IBGC, incluindo as de Conselho de Administração, Estratégia e Inovação, Ética e Integridade, Famílias Empresárias e Empresas Familiares, Governance Officers, Jurídica e Sustentabilidade e Clima, além das ricas contribuições coletadas na etapa de audiência restrita e audiência pública.
O maior aprendizado foi compreender que a implementação da governança não pressupõe a adoção imediata de estruturas complexas. O desafio foi calibrar o texto para que as recomendações fossem apresentadas como um caminho evolutivo, prático e adaptável à complexidade de cada startup, e não como uma cartilha rígida de obrigações burocráticas.
O ecossistema de startups passou por muitas transformações desde a primeira edição, lançada em 2019. Como essas mudanças influenciaram e motivaram as discussões e o desenvolvimento desta nova versão do caderno?
Desde o lançamento da primeira edição em 2019, o ecossistema de startups passou por um rápido amadurecimento de mercado, forte avanço tecnológico, aumento da complexidade regulatória e evolução das expectativas de investidores e clientes. No Brasil, marcos importantes como o Marco Legal das Startups trouxeram o empreendedorismo inovador para o centro do desenvolvimento econômico e regulatório de novos negócios.
Essas mudanças profundas exigiram que a publicação fosse atualizada e expandida em quatro frentes principais:
• Inclusão do Pilar Social e Ambiental: Diante da urgência das pautas de sustentabilidade, criamos um pilar dedicado para orientar como startups podem mitigar externalidades e gerar valor socioambiental desde a ideação até a escala.
• A Inteligência Artificial como Tema Transversal: A IA deixou de ser apenas uma ferramenta de TI para se tornar um elemento que redefine modelos de negócios, produtos, culturas corporativas e processos de tomada de decisão. O caderno agora integra a governança de IA transversalmente em todos os pilares.
• Foco em Oportunidades: O tom do guia foi ajustado para demonstrar que a governança atua como um mecanismo de coordenação e geração de valor (facilitando captação, reduzindo riscos e alinhando expectativas), afastando a visão de que ela seria apenas um freio burocrático.
• Reorganização Estrutural: O conteúdo foi reordenado em torno dos pilares de governança, mantendo a lógica de evolução gradual pelas fases do ciclo de vida em cada tema de forma mais clara e direta.
O lançamento acontecerá durante o Rio Innovation Week, um dos maiores eventos de inovação da América Latina. Qual é a sua expectativa para esse momento e para a recepção do público?
A expectativa é extraordinária, especialmente porque o IBGC terá uma presença de destaque com um palco exclusivo no Rio Innovation Week. Este espaço será o coração do lançamento oficial da segunda edição do caderno e servirá como uma arena de debate profundo sobre o papel da governança no uso eficaz e na gestão da Inteligência Artificial.
Sob o tema central do evento este ano, “Simbiose – o futuro não acontece isolado”, nosso palco, com curadoria capitaneada pela coordenação do capítulo Rio e voluntários, promoverá uma reflexão crucial sobre três grandes questões que desafiam o ecossistema de tecnologia:
• Quais decisões não são delegáveis para a tecnologia e continuam sendo inegociavelmente humanas? Debatemos que o julgamento ético, a definição do apetite a risco, a empatia e a responsabilidade fiduciária final pelas consequências das decisões corporativas não podem ser automatizados. A IA fornece dados e previsões, mas a escolha de valor e a responsabilização legal permanecem humanas.
• Que novo repertório conselhos, lideranças e organizações precisam desenvolver quando a IA passa a influenciar decisões, reputações, trabalho, sustentabilidade e relações de poder? Lideranças e conselhos não precisam virar programadores, mas precisam desenvolver letramento digital para questionar criticamente os algoritmos, auditar viés de dados, garantir cibersegurança, e entender o impacto ético e reputacional que a IA exerce sobre o capital humano e o trabalho.
• Se inteligência, análise e execução começam a ser delegadas para máquinas, qual passa a ser o verdadeiro papel do humano — nas empresas, na liderança, na sociedade e nas relações? O papel do ser humano migra da execução mecânica para a curadoria, a sensibilidade criativa, a resolução de dilemas éticos complexos e, acima de tudo, a construção de ambientes baseados na segurança psicológica e no pertencimento.
Essa discussão humanizada ganha ainda mais força com a presença no evento de autoridades globais como o neurocientista vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, Edvard Moser, além de referências em inteligência artificial como Chris Rynning, Julian Pistone, Ana Helena Ulbrich e Michelle Schneider.
Na sua visão, qual é a importância desse lançamento para o IBGC e para o fortalecimento da agenda de governança corporativa no universo das startups e scale-ups?
Para o IBGC, este lançamento reforça sua missão institucional de ser a referência nacional em governança corporativa, disseminando conhecimento e influenciando os agentes do mercado em direção ao desempenho sustentável. Ao expandir sua atuação para o universo das startups e scale-ups, o IBGC consolida-se como um farol para a nova economia, mostrando que a boa governança não é restrita a grandes corporações de capital aberto ou maduras.
Para o ecossistema, o caderno fortalece a agenda ao demonstrar que estruturar processos, responsabilidades e transparência desde cedo é um investimento estratégico que reduz a assimetria de informações com investidores. Isso eleva a maturidade das startups brasileiras, tornando-as mais resilientes a crises, mais atraentes para o capital qualificado global e preparadas para gerar impactos positivos reais na sociedade.
Para quem ainda não conhece a publicação, por que vale a pena acompanhar esse lançamento e explorar esse novo material?
Esta publicação é indispensável para fundadores, gestores, conselheiros e investidores por ser um guia evolutivo, modular e extremamente prático focado na realidade da inovação. Vale a pena explorar o material por quatro motivos fundamentais:
• O Modelo Conceitual Adaptável: O leitor não é obrigado a implementar estruturas complexas imediatamente. Ele pode se localizar em uma das quatro fases de maturidade (Ideação, Validação, Tração ou Escala) e focar exclusivamente nas práticas recomendadas para o seu momento de mercado.
• Temas de Vanguarda: O caderno traz diretrizes pioneiras de governança para Inteligência Artificial (tratando de métricas de acurácia, mitigação de vieses, rastreabilidade e supervisão humana) e destrincha o papel invisível da segurança psicológica e do pertencimento na cultura de performance de times de tecnologia.
• Checklist Prático de Implementação: O apêndice traz um checklist completo e objetivo de práticas recomendadas por pilar e fase do ciclo de vida, servindo como uma folha de rota para auditorias internas ou autoavaliações rápidas da startup.
• Glossário do Mercado: O material conta com um glossário detalhado que traduz e descomplica os principais termos societários e financeiros utilizados pelo ecossistema (como captable, burn rate, founders vesting, cliff, runway e option pool).