A compreensão do papel dos administradores é fundamental para entender como as organizações se posicionam e se relacionam em um ambiente cada vez mais complexo e interdependente. No contexto da governança corporativa, esses agentes assumem funções essenciais para a condução estratégica, a geração de valor e o equilíbrio entre interesses diversos.
Para aprofundar o tema, o Blog IBGC conversou com Mauro Mori, sócio do Machado Associados na área societário. Mori abordou o conceito de ecossistema de governança, as atribuições dos administradores e os principais desafios atuais relacionados à ética, transparência e sustentabilidade. Confira a seguir.
BLOG IBGC: Quem são os administradores no ecossistema de governança? Por que esse termo?
Mauro Mori: A expressão “ecossistema” remete ao conjunto de relações existentes entre os diversos seres vivos de uma comunidade e à sua interdependência com o ambiente em que estão inseridos. Essa noção é bastante adequada ao estudo da governança corporativa, pois a governança não se limita à estrutura interna da empresa: ela pressupõe a análise das relações da organização com seus diversos stakeholders (como acionistas, administradores, empregados, fornecedores, clientes, credores, agentes governamentais e a sociedade civil em geral) e com o ambiente econômico, social, ambiental, regulatório e geopolítico em que atua.
Nesse ecossistema de governança, os administradores exercem papel central. A empresa, enquanto organização destinada à produção ou circulação de bens e serviços, é uma ficção jurídica que depende de pessoas naturais para definir sua orientação negocial, tomar decisões e executar suas atividades. Em suma, em um ecossistema de governança, uma empresa se manifesta e se relaciona com os diversos stakeholders e com o ambiente em que se encontra por meio de seus administradores.
Quais são as principais atribuições legais e estratégicas dos administradores na condução e supervisão das organizações?
Sob a perspectiva estratégica, os administradores têm a missão de definir ou implementar os direcionamentos da organização, assegurar a adequada alocação de recursos, monitorar riscos e oportunidades de negócios, supervisionar e avaliar o desempenho da gestão, gerenciar capital humano, zelar pela perenidade da organização e promover a criação de valor sustentável no longo prazo.
Sob a perspectiva legal, os administradores são responsáveis pela orientação e pela execução da gestão dos negócios da organização, observadas as competências atribuídas pela legislação, pelos documentos societários (estatuto social, contrato social) e pela estrutura de governança adotada.
No âmbito do ecossistema de governança, essas atribuições costumam ser distribuídas entre diferentes órgãos. O conselho de administração — órgão obrigatório nas companhias abertas, nas companhias de capital autorizado e nas sociedades de economia mista — é responsável, dentre outras funções, pela definição da orientação estratégica dos negócios, pela eleição e supervisão da diretoria e pelo monitoramento do desempenho da organização. Já a diretoria é responsável pela gestão executiva da sociedade e pela implementação das estratégias e diretrizes aprovadas pelo conselho.
Quando a organização não possui conselho de administração e conta apenas com a diretoria como órgão de administração, diversas atribuições tipicamente associadas ao conselho passam a ser exercidas pelos próprios diretores, que acumulam funções.
Os administradores podem, ainda, contar com o apoio de comitês e conselhos consultivos que, embora não exerçam atividades de administração, fornecem aos administradores subsídios para tomada de decisão qualificada e informada e, dessa forma, tais órgãos agregam valor à governança.
Como os administradores contribuem para a geração de valor de longo prazo e para a prestação de contas e harmonia entre stakeholders?
Os administradores contribuem para a geração de valor de longo prazo ao orientar suas decisões não apenas por resultados imediatos, mas pela sustentabilidade, competitividade e perenidade da organização. Para isso, devem formular, implementar e supervisionar estratégias consistentes, gerir riscos relevantes e identificar oportunidades capazes de fortalecer a organização ao longo do tempo.
Para tanto, os administradores devem considerar os impactos de suas decisões sobre os diversos stakeholders e buscar o equilíbrio entre interesses legítimos que, muitas vezes, podem ser conflitantes. Esse equilíbrio é alcançado por meio de processos decisórios transparentes, tratamento equitativo, diálogo com as partes interessadas e adoção de soluções que privilegiem a criação de valor sustentável para a organização como um todo. Essa atuação contribui para a redução de conflitos, para o fortalecimento das relações de confiança e para a harmonia entre os stakeholders.
Nesse contexto, os administradores funcionam como elo entre a organização e seus stakeholders. Cabe a eles promover transparência, prestação de contas e canais adequados de relacionamento. Exemplos práticos incluem a divulgação periódica de informações relevantes, reuniões com investidores ou partes interessadas e canais de comunicação acessíveis.
Ao atuarem com transparência e ao prestarem contas de seus atos por meio de informações claras, precisas e tempestivas, os administradores reduzem a assimetria informacional e fortalecem a confiança dos stakeholders na organização. Isso permite que investidores, credores, fornecedores, colaboradores e demais interessados avaliem adequadamente os riscos e oportunidades relacionados à organização e tomem decisões mais informadas sobre seus investimentos e relacionamentos.
Quais são os principais desafios atuais dos administradores em temas como ética, transparência e sustentabilidade? Pode citar até 3 desafios?
Entre os diversos desafios enfrentados atualmente pelos administradores, destaco os seguintes:
1. Uso ético da tecnologia e da inteligência artificial
A transformação digital e a crescente utilização de ferramentas de inteligência artificial impõem aos administradores o desafio de assegurar que essas tecnologias sejam utilizadas de forma estratégica, que gerem real valor ao negócio e ao mesmo tempo de forma ética, responsável e alinhada aos valores da organização. Isso inclui o treinamento de colaboradores para o uso responsável de ferramentas de IA, a prevenção de vieses algorítmicos que possam reproduzir ou ampliar discriminações, a proteção da privacidade e dos dados pessoais, a transparência quanto ao uso de informações e aos critérios adotados pelos sistemas automatizados, bem como o respeito aos direitos humanos e à imagem das pessoas.
2. Sustentabilidade e geração de valor no longo prazo
Outro desafio relevante consiste em conciliar crescimento econômico, preservação ambiental e desenvolvimento social. Questões como mudanças climáticas, transição energética, escassez de recursos naturais, gestão de resíduos e impactos socioambientais das atividades empresariais, responsabilidade e desenvolvimento social passaram a integrar a agenda estratégica das organizações. Os administradores devem incorporar esses fatores ao processo decisório, compreendendo que a empresa está inserida em um ecossistema mais amplo e que sua perenidade depende da capacidade de gerar valor de forma sustentável para as gerações presentes e futuras.
3. Transparência e gestão adequada das informações
A transparência é um dos pilares mais importantes da governança corporativa e representa um importante desafio para os administradores. A legislação e a regulamentação estabelecem obrigações mínimas de divulgação, mas as organizações podem fornecer informações adicionais que entendam relevantes. Ao mesmo tempo, os administradores devem encontrar o equilíbrio entre a transparência e a proteção de informações estratégicas, segredos de negócio, dados pessoais e demais informações cuja divulgação possa prejudicar a competitividade da organização ou violar direitos de terceiros. Transparência não significa os stakeholders tenham o direito ao acesso a toda e qualquer informação e a qualquer tempo, mas sim assegurar que os stakeholders recebam as informações necessárias (e de forma clara, tempestiva e acessível) para a tomada de decisões informadas, fortalecendo a confiança na organização.