“Resiliência se constrói com vivência e disciplina”

Frase é de Monica Neves Cordeiro, conselheira de empresas, sobre o papel dos CAs na construção de organizações resilientes

  • 02/02/2026
  • Victoria Andrade
  • Bate-papo

A complexidade crescente do ambiente de negócios tem reforçado o papel estratégico dos conselhos de administração na criação de organizações mais resilientes, isto é, preparadas para antecipar riscos, lidar com crises e sustentar resultados no longo prazo.

Para discutir como a resiliência pode fortalecer a governança, o Blog IBGC conversou com Monica Neves Cordeiro, conselheira de administração desde 2012 e profissional com sólida experiência nos setores de energia e atração de investimentos. Confira a seguir.

BLOG IBGC: Em sua experiência como conselheira, quais competências se tornaram indispensáveis para que um conselho contribua estrategicamente com a organização?

Monica Cordeiro: Naturalmente, as competências básicas permanecem válidas e fundamentais, como conhecimento profundo de governança corporativa, do negócio, de processos de decisão e visão estratégica, de longo prazo e de futuro. Mas eu destacaria hoje a habilidade de entender o contexto maior em que se insere a organização, de saber articular e construir pontes e colaboração. Saber ouvir, entender a dinâmica de um colegiado de pares, liderar e agir com velocidade fazem a diferença na entrega dos conselheiros que realmente contribuem para a longevidade e sustentabilidade de suas organizações.

Você possui ampla vivência internacional. De que forma as diferenças culturais impactam a dinâmica dos colegiados e a tomada de decisões?

Essas diferenças – e vale aqui a repetição – fazem toda a diferença: impactam o processo de construção de confiança, o processo de comunicação e, consequentemente, todo o processo de decisão. Cada cultura tem seu ritmo, seus costumes, seus valores, a importância que atribui aos relacionamentos, por exemplo. Em síntese, é uma experiência desafiadora, extremamente rica e diversa. Atuar internacionalmente pressupõe colegiados diversos, permitindo que a organização se aproprie do famoso dito “pensar global e atuar localmente” e obtendo resultados. O domínio do idioma e dos aspectos culturais é o caminho mais seguro para essa atuação como conselheiro ou agente de governança. De outra forma, é grande a probabilidade de ocorrerem constrangimentos ou mesmo falhas desastrosas.

Quando falamos em resiliência nas organizações, qual deve ser o papel do conselho na antecipação de riscos estratégicos antes que eles se tornem crises?

Resiliência se constrói com vivência e disciplina. Para que os riscos estratégicos sejam antecipados, nada substitui o trabalho intenso de construção de uma cultura de gestão de riscos na organização, a disciplina de tratativa (em profundidade) deste tema em conselho. As crises – de toda ordem - ocorrem, só não sabemos quando. A preparação é a chave e disciplina e ritmo adequados de trabalhar estes temas nos colegiados são o que desenvolvem a musculatura de visão efetivamente estratégica para aquela organização.

Como o conselho pode ajudar a criar uma cultura organizacional que favoreça adaptação, flexibilidade e inovação contínua?

Também para este tema a resposta passa por profundidade e disciplina em entender e dialogar sobre o tema, mas a proposta de inovação implica também em desenvolver um ambiente onde se possa experimentar, errar. Onde exista a segurança psicológica de poder se expressar. Muito se fala, mas ainda temos um bom caminho a percorrer no sentido de alcançar esse estágio. É o caminho. E sem inovação não construímos futuro, função principal de um conselho. Cabe assim, ao conselho, ser exemplo e transpirar verdade ao apoiar e supervisionar iniciativas inovadoras.

Que competências um conselheiro precisa desenvolver em matéria de diversidade para atuar em empresas que buscam resiliência não só financeira, mas também humana e cultural?

Na minha experiência, se realmente queremos ter uma diversidade que contribui, nós conselheiros devemos inicialmente conhecer práticas inclusivas. Antes mesmo de promover a diversidade ampla em colegiados – e olha que isso não é pouco –, entender cada um dos grupos ou minorias que queremos incluir. Sem isso, as ações afirmativas se perdem ao longo do tempo, por não termos adequadamente integrado estes públicos diversos com os quais queremos contar em nossas organizações. Essa atitude de respeito faz toda a diferença e a Cartilha do IBGC é uma referência relevante neste processo.

Uma mensagem final?

Praticar governança é construir legado. Conhecimento, disciplina, colaboração, visão e contexto são palavras-chave neste processo. É apaixonante atuar como agente de governança, como conselheiro – mas é desafiador e requer dedicação. Ainda assim, vale muito a pena. 

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