“CAs bem-sucedidos utilizam a sustentabilidade para reforçar seus compromissos”

Destaque é de Onara Lima, fundadora da ESG Advisory, em bate-papo sobre o tema para o Blog IBGC

  • 23/02/2026
  • Victoria Andrade
  • Bate-papo

Com a crescente demanda por práticas ESG consistentes, os conselhos de administração têm assumido papel central na integração da sustentabilidade às estratégias corporativas. Para entender mais sobre o tema, o Blog IBGC conversou com Onara Lima, fundadora da ESG Advisory. No bate-papo, ela destacou caminhos para transformar compromissos em resultados concretos. Confira abaixo.

1. Como a estrutura de governança da empresa contribui para a definição e o acompanhamento de metas ambientais e sociais?

Com o crescente olhar dos stakeholders nos princípios ESG (Ambiental, Social e de Governança), em especial, o mercado financeiro (investidores), o papel dos conselhos de administração tornou-se ainda mais crucial para fortalecer as práticas empresariais nesta direção. A governança corporativa, que tradicionalmente se concentrava na supervisão financeira e na gestão de riscos, agora incorpora cada vez mais considerações ESG para garantir que as empresas atendam às expectativas de investidores, reguladores e da sociedade em geral. Espera-se que os conselhos de administração forneçam liderança, supervisão e responsabilidade na incorporação dos princípios ESG como a estrutura que define e monitora metas ambientais e sociais ao integrar a sustentabilidade em seus processos decisórios principais, estabelecer mecanismos de responsabilização para a liderança e utilizar comitês especializados para supervisão e assessoramento ao CA.

Uma governança eficaz incorpora a temática por meio de políticas, gestão de riscos e métricas de desempenho, como a vinculação da remuneração dos executivos a metas adequadas ao negócio. Neste cenário, é fundamental a integração da gestão de riscos com as estruturas de governança identificando proativamente potenciais ameaças regulatórias, de reputação socioambientais.

A governança dos aspectos socioambientais influencia diretamente a reputação, o desempenho e a gestão de riscos de uma empresa, sendo que o conselho de administração desempenha um papel fundamental para garantir que a sustentabilidade e a responsabilidade social sejam integradas a todos os aspectos da tomada de decisões corporativas e estratégia central.

Ao estabelecer essas estruturas de governança, as empresas garantem que os objetivos ambientais e sociais não sejam meramente periféricos, mas sim parte integrante da resiliência financeira e da criação de valor a longo prazo.

2. De que forma o conselho de administração influencia em decisões sustentáveis, especialmente em momentos de pressão econômica?

O conselho de administração influencia as decisões economicamente sustentáveis ao incorporar os princípios ambientais, sociais e de governança (ESG) diretamente na estratégia corporativa, no modelo de negócio, na gestão de riscos, oportunidades e definindo a responsabilização dos executivos. Em tempos de pressão econômica, o conselho atua como uma salvaguarda contra o imediatismo, garantindo que a sustentabilidade seja vista como uma fonte de resiliência a longo prazo e vantagem competitiva, e não como um custo a ser cortado.

O conselho precisa ter visão ampla e farol alto, ou seja, a transição para o valor de longo prazo. Conselhos de administração bem-sucedidos em tempos de crise utilizam a sustentabilidade para reforçar seus compromissos com priorização e pragmatismo, se concentram nas questões ESG específicas que são mais "relevantes" para o desempenho financeiro, como a eficiência no uso de recursos que reduz os custos operacionais, proteção de investimentos de longo prazo, o que proporciona clareza e orienta decisões difíceis.

3. Como os conselhos ajudam a empresa a tomar decisões mais sustentáveis no dia a dia?

Compreender como os fatores ESG podem influenciar o negócio, é primordial para que o conselho seja efetivo na abordagem do tema dentro da estratégia central.
Conselhos que integram estrategicamente a governança dos aspectos socioambientais de forma proativa e consistente, incentivam os planos de transição estratégicos para o negócio e setorialmente viáveis, com capacidade de vincular alocação de capital para adaptação aos cenários e potencialidades da green economy.

Conselheiros capazes de navegar pelos fatores de pressão ESG mercadológicos, terão capacidade de antecipar tendências, adaptar rotas com maior velocidade e fortalecer a confiança dos stakeholders. Lembrando que direção sempre será mais importante que a velocidade, e a consistência será fundamental para obter capacidade de mensuração dos esforços, com equilíbrio e pragmatismo.

Construção de resiliência, passa pelos conselhos que consideram as práticas sustentáveis, como transparência na cadeia de suprimentos e descarbonização, como ferramentas de gestão de riscos que protegem a empresa contra interrupções no fornecimento, penalidades legais e danos à reputação em períodos de volatilidade. Sustentabilidade bem estruturada com a linguagem de negócios, sendo os aspectos ESG a capacidade de estruturar esse caminho com dados que devem ser integrados no fundamento do negócio como fator de eficiência.

4. Na sua opinião, de que forma a cultura de governança pode integrar a sustentabilidade ao dia a dia da organização, tornando-a parte da cultura organizacional e não apenas uma ação pontual?

Integrar a sustentabilidade às operações diárias exige incorporá-la à estrutura central de governança, indo além de simples políticas, indicadores e relatórios, precisa partir de mudanças estruturais. As principais ações incluem alinhar a comunicação do tema com as práticas reais e percebidas pelos colaboradores em todas as posições (walk the talk), esse distanciamento nasce da desconexão entre o que a empresa diz e o que os colaboradores vivenciam. Quando a estratégia institucional não encontra eco no cotidiano, ESG se transforma em uma camada paralela, desconectada da estratégia, e perde sua capacidade de gerar valor. Neste sentido, pensando em fortalecer a cultura prática é necessário incorporar os critérios ESG aos processos operacionais, plugar na tomada de decisão, treinar a equipe e capacitar os funcionários para liderarem iniciativas, constituir uma história que faça sentido para as pessoas que precisam executar e se sentirem parte desse processo, gerando um engajamento genuíno.

A narrativa começa na liderança e determina a cultura: a liderança precisa dar o tom e a direção. Nenhuma mudança organizacional acontece sem que líderes modelem a narrativa de forma intencional e percebida nas práticas do dia a dia. Cultura organizacional não se transforma por decreto; se transforma quando é sentida no comportamento, é sobre a história certa contada repetidas vezes, de forma coerente, transparente e inspiradora.

Para alcançar o sucesso a longo prazo, a sustentabilidade deve ser tratada como um valor fundamental, e não como uma ação periférica e pontual.

5. Como a transparência contribui para fortalecer a confiança de stakeholders nas ações sustentáveis da empresa?

A transparência fortalece a confiança das partes interessadas nas ações sustentáveis de uma empresa, funcionando como um "elo de valor”, transformando a sustentabilidade de uma tática de marketing em um comportamento corporativo estratégico, verificado, responsável e confiável. Ao fornecer dados de qualidade, honestos e acessíveis, incluindo informações da cadeia de suprimentos, as empresas podem construir credibilidade, reduzir o ceticismo e permitir que as partes interessadas tomem decisões informadas.

Por outro lado, ao optar por divulgar informações seletivamente, as empresas podem expor sua reputação, e isso tende a minar o potencial da transparência quanto as suas práticas de sustentabilidade. Além de aumentar os riscos relacionados ao dever fiduciário.

A dinâmica de poder da transparência não é um conceito neutro; está intrinsecamente ligada às relações de poder nas alçadas decisórias e controle corporativo.

A transparência das informações ESG está sendo moldada por diversos fatores, como a crescente disponibilidade de dados, o desenvolvimento de novas tecnologias, como imagens de satélite e redes de sensores, está facilitando a coleta e a análise de dados ambientais e sociais. Isso aumentará a pressão sobre as empresas para que sejam transparentes quanto aos seus impactos.

Construir confiança e credibilidade, em um mundo interconectado, exige transparência e coragem, sinalizando que a empresa "não tem nada a esconder", atuando como um antídoto para o greenwashing. Quando as empresas compartilham proativamente tanto os sucessos quanto os fracassos, elas são percebidas como mais honestas e autênticas. 

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