A inteligência artificial e o uso crescente de dados vêm transformando a forma como as organizações tomam decisões, mas nem tudo pode ser traduzido em eficiência ou algoritmos. Para Rodrigo Pinotti, CEO do Grupo InPress Porter Novelli, o desafio das lideranças está em combinar inovação e velocidade com julgamento ético, sensibilidade humana e atenção aos impactos sobre a reputação e a confiança. Neste bate-papo com o Blog IBGC, ele fala sobre o papel da governança na transformação das organizações e sobre como preparar empresas para inovar sem perder coerência e credibilidade.
BLOG IBGC: O tema do 27º Congresso IBGC é "O ser humano na liderança da transformação". Na sua visão, qual é o maior desafio das lideranças para equilibrar tecnologia, inovação e o fator humano nas decisões?
Rodrigo Pinotti: O maior desafio da alta liderança é resistir à ilusão da eficiência cega, lembrando que tecnologia e inovação são meios, mas a reputação e a confiança — ativos essencialmente humanos — são o fim. Vivemos um momento em que conselhos e diretorias são pressionados por velocidade e produtividade. Contudo, quando a tomada de decisão automatizada atropela a empatia, o julgamento ético e a escuta ativa da cultura interna, o risco reputacional explode.
A InPress Porter Novelli realizou uma pesquisa inédita com a Opinion Box, ouvindo mais de 400 lideranças de todo o Brasil, e nela identificamos que 75,5% dos executivos elegem a reputação como prioridade absoluta. O estudo também revela que, quando analisadas as crises de origem interna, 82% delas foram classificadas pelas lideranças como evitáveis, nascendo de falhas internas de processo, ruídos de clima e desalinhamento humano na operação diária.
Equilibrar essa equação exige que os conselhos de administração cobrem da diretoria não apenas indicadores de produtividade algorítmica, mas governança sobre políticas, processos e como as decisões impactam os stakeholders. A tecnologia acelera o negócio, mas é o julgamento humano que garante a sustentabilidade do valor imaterial da marca no longo prazo.
Estamos vendo que decisões são cada vez mais orientadas por dados e inteligência artificial. O que continua sendo insubstituível na liderança humana na sua avaliação e que se conecta ao trabalho na sua organização hoje?
O que continua rigorosamente insubstituível é a capacidade de contextualização cultural, a sensibilidade social e o discernimento ético em momentos de pressão. A inteligência artificial é extraordinária para processar volumes massivos de dados, identificar padrões e otimizar rotinas. No entanto, a IA não possui inteligência emocional, não compreende as nuances do sentimento público e não consegue sentir a temperatura da cultura de uma organização.
No nosso trabalho, orientando grandes marcas em posicionamento estratégico e gestão de riscos, vemos que os dados apontam o cenário, mas é o fator humano que define a conduta moral e a narrativa correta. Em momentos de incerteza, o algoritmo entrega a probabilidade, mas o líder entrega o julgamento crítico.
A confiança não é uma métrica algorítmica; é uma relação humana construída com coerência, transparência e empatia. A IA analisa os fatos, mas a liderança humana constrói e preserva a credibilidade.
Que práticas de governança você considera essenciais para que as organizações consigam se transformar sem perder consistência nas decisões?
Transformar-se exige inovação constante, mas inovar sem um direcionamento claro gera dispersão e perda de identidade corporativa. A governança precisa ser o motor que viabiliza a mudança, garantindo que a busca por novos mercados, tecnologias e modelos de negócio não atropele a essência da organização.
Para que a transformação ocorra com velocidade e consistência, considero essenciais três práticas de governança:
- Valores e princípios como filtro de inovação: Os valores da empresa não podem ser quadros na parede, mas o critério primário para validar qualquer projeto inovador. A pergunta do Conselho não deve ser apenas "isso gera valor financeiro?", mas "isso é coerente com quem somos e com o que prometemos aos nossos stakeholders?".
- Cultura de segurança psicológica e aprendizado: A inovação pressupõe experimentação e erro calculado. Uma governança madura estabelece limites claros de atuação, dando autonomia e segurança às equipes para testar o novo sem o medo de retaliações em caso de falhas de percurso.
- Gestão de riscos integrada à estratégia: A gestão de risco não existe para barrar a inovação, mas para viabilizá-la de forma sustentável. Ela atua como um pilar de apoio que mapeia cenários e prepara a organização para evoluir com responsabilidade ética e institucional.
A governança não deve limitar a inovação, mas dar a direção e a coerência necessárias para que a empresa se reinvente sem perder a sua reputação.
Que tipo de debate considera indispensável para quem atua com governança hoje?
Um tema ao qual temos dedicado imensa atenção na InPress Porter Novelli — e que temos incentivado ativamente nossos clientes a trazerem para discussão - é como mediar e acompanhar o impacto da IA na reputação corporativa.
Não se trata de discutir apenas a eficiência operacional que a tecnologia traz, mas de olhar para a IA como um vetor estratégico de risco e de valor de marca. A inteligência artificial transforma processos, produtos e formas de interação, mas também abre novas frentes de vulnerabilidade, desde o uso ético de dados e viés algorítmico à exposição da marca a informações inverídicas ou vazamentos de propriedade intelectual.
A reflexão que provocamos junto aos conselheiros e diretores é sobre como construir diretrizes claras que permitam à empresa inovar com segurança e responsabilidade.
A IA não é uma pauta exclusiva do departamento de tecnologia ou de inovação; é uma pauta de governança e perenidade de negócio. Assim, incentivamos as companhias a estabelecerem políticas vivas, limites bem definidos e monitoramento de riscos. A preparação prévia é o que garante que a organização aproveite o potencial da inovação sem comprometer a confiança e a credibilidade que construiu no mercado.
*Este texto foi produzido pelo Grupo InPress Porter Novelli, parceiro institucional do 27° Congresso IBGC. Seu conteúdo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.