Durante mais de dez anos, a agenda ESG foi o farol para investidores, organizações e corporações que buscavam alinhar lucro e propósito. No entanto, a conjuntura global dos últimos anos (marcada por conflitos, fragmentação econômica e disputas tecnológicas) tem demonstrado que esse modelo, por si só, já não é suficiente para garantir a sobrevivência e a perenidade dos negócios. Emerge, nesse cenário, o conceito de ESG 2.0, uma abordagem que reposiciona a velha sigla sob uma nova ótica: a da geopolítica como eixo central da estratégia corporativa.
O principal estudioso dessa releitura é o economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (o Banco do Brics). Para ele, o mundo vive a "emergência do ESG 2.0", cenário no qual o E deixou de ser apenas “Ambiental” para representar a “Economia”; o S, antes “Social”, agora incorpora a noção de “Segurança”; e o G, que se limitava à “Governança” corporativa, expande-se para a “Geopolítica”.
Para Troyjo, não se trata de abandonar as preocupações originais, mas de reconhecer que, em um ambiente de "policrise", como definido pelo Fórum Econômico Mundial, a estabilidade do clima e a justiça social dependem, primeiro, da estabilidade dos Estados e da previsibilidade das cadeias de suprimento.
A nova equação coloca a geopolítica no centro da governança corporativa porque os riscos que ela representa são imediatos e existenciais. A crise energética na Europa, desencadeada pelo conflito na Ucrânia, é o exemplo mais didático: nações que lideravam a pauta ambiental viram-se forçadas a reativar usinas a carvão para garantir o aquecimento de suas populações, subordinando, temporariamente, a agenda climática à segurança energética. Os recentes conflitos no Irã e consequente alto nos barris de petróleo reforçam a tese.
Em última análise, o chamado “ESG 2.0” não deve ser analisado como o fim da agenda ambiental e social, mas talvez como uma possível evolução. Essa atualização sinaliza que a proteção do planeta e o bem-estar social são objetivos que só podem ser perseguidos de forma consistente em um mundo economicamente estável e seguro.
A pergunta que passou a ecoar nos conselhos de administração não é mais apenas "como reduzir nossa pegada de carbono?", mas "nossa operação sobreviveria a um bloqueio energético ou a uma ruptura geopolítica?". Para as empresas, o recado é claro: a liderança que apostar somente em análises estritamente técnicas, ignorando a nova centralidade da geopolítica, correrá grande risco de ficar para trás.