Ao longo da carreira, vivenciei casos onde somente a competência não foi suficiente. Vi excelentes profissionais permanecerem praticamente invisíveis por anos. E vi outros, tecnicamente semelhantes, serem lembrados sempre que surgia uma oportunidade relevante.
Foi uma realidade que, por muito tempo, me incomodou. Hoje entendo que, na maior parte dos casos, a explicação está em dois fatores: posicionamento e network.
Tão importante quanto quem somos é como as pessoas nos percebem.
A opinião isolada de uma pessoa é apenas uma percepção individual. Quando essa mesma percepção passa a ser compartilhada por várias pessoas, ela se transforma em reputação. É aí que nasce o posicionamento.
Al Ries e Jack Trout, autores de Positioning: The Battle for Your Mind, defendem que posicionamento é o espaço que ocupamos na mente das pessoas. David McNally e Karl Speak, em Be Your Own Brand, complementam essa visão ao argumentarem que nossa marca pessoal é construída pelas experiências consistentes que proporcionamos aos outros. Não basta querer ser reconhecido por determinada característica. É a coerência entre o que fazemos, o que entregamos e a forma como nos relacionamos que sustenta um posicionamento ao longo do tempo.
Posicionamento é o resultado das nossas atitudes, decisões, entregas e, sobretudo, da coerência entre discurso e prática.
Isso não tem relação com ser extrovertido ou popular. Conheço executivos reservados com posicionamento muito bem definido. Conheço outros reconhecidos pela colaboração, pela generosidade e pela entrega consistente, e o posicionamento deles é igualmente forte, apenas diferente. Não existe um modelo ideal. Existe um posicionamento mais ou menos aderente aos objetivos que cada profissional deseja alcançar.
Deixo uma provocação: o posicionamento que você construiu está facilitando ou dificultando a carreira que você deseja construir?
Quem aprovou sua última promoção tomou essa decisão com base na percepção de valor que você construiu ao longo do tempo. Isso vale para um convite para liderar um projeto estratégico, assumir uma posição de liderança ou ocupar uma cadeira em um Conselho de Administração. O mercado decide com base na forma como nos enxerga. Não é sobre aparecer. É sobre construir consistência, gerar valor e fortalecer uma reputação sólida.
Construído o posicionamento, entra o segundo elemento: o networking.
Relacionamento profissional não se constrói quando a necessidade aparece. Constrói-se antes, continuamente, por meio de confiança, reciprocidade e interesse genuíno pelas pessoas, não pelo que elas podem nos oferecer.
Mark Granovetter, em seu clássico The Strength of Weak Ties, demonstrou que boa parte das oportunidades relevantes surge justamente das conexões que estão fora do nosso círculo mais próximo. São essas relações que trazem novas informações, perspectivas diferentes e, muitas vezes, portas que sequer sabíamos que existiam.
Uma prática que recomendo é mapear sua rede de forma estruturada. Liste as pessoas relevantes da sua trajetória e identifique como cada uma contribui para o seu desenvolvimento: mentoria técnica, mentoria comportamental, ampliação de rede, influência institucional, oportunidades futuras ou aconselhamento estratégico.
Depois, registre aquilo que aproxima vocês como interesses em comum, datas importantes, experiências compartilhadas, e estabeleça um plano simples para manter o relacionamento vivo: um café semestral, um almoço periódico ou uma mensagem enviada no momento certo. Uma boa rede de relacionamentos não é construída pela quantidade de contatos, mas pela qualidade das relações.
Formação, experiência, posicionamento e networking não competem entre si. Cada um exerce um papel diferente. A formação desenvolve competências. A experiência gera repertório. O posicionamento constrói confiança. O networking amplia oportunidades. Juntos, tornam a trajetória profissional mais consistente e aumentam as chances de crescimento.
Naturalmente, outros fatores também influenciam uma carreira de sucesso. Não pretendo esgotar esse tema nem apresentar uma fórmula definitiva. Compartilho apenas uma reflexão construída ao longo de mais de duas décadas de atuação em gestão de projetos, estratégia corporativa e, mais recentemente, em Conselhos de Administração. Se este texto provocar alguém a refletir sobre a forma como vem construindo sua reputação e seus relacionamentos profissionais, já terá cumprido seu propósito.
Competência continua sendo indispensável. Mas ela raramente fala sozinha. Em um ambiente cada vez mais complexo, são o posicionamento que construímos e as relações de confiança que cultivamos que transformam bons profissionais em nomes lembrados quando as decisões realmente importam.
*Glauco Marchioni é executivo de Estratégia Corporativa, Marketing, Dados e Analytics no SPC Brasil. Administrador de empresas, especialista em Marketing pela FGV e em gerenciamento de projetos pelo Senac, com formação de Conselheiro de Administração pela FDC e certificado CCA pelo IBGC. Possui certificações profissionais em gestão de projetos, processos, mudanças organizacionais e ESG, incluindo PMP® pelo PMI, CBPP® pela ABPMP, HCMBOK® e HCMP® pela HUCMI, além da formação como Auditor Líder ESG pela ABNT.