Governança na agenda climática: do compromisso à implementação nas organizações

Encontro do Chapter Zero Brazil debate o papel dos conselhos na transição climática e as oportunidades para o Brasil

  • 27/10/2026
  • Melina Mayrink
  • Eventos

Como transformar os compromissos com o clima e a natureza em decisões efetivas nas organizações? Essa foi a questão central do encontro Chapter Zero Brazil | Governança para um mundo em transição, realizado nesta terça-feira (27), na sede do IBGC. O evento reuniu especialistas e lideranças empresariais para discutir o papel dos conselhos de administração na implementação da agenda climática e na identificação de oportunidades para os negócios. 

Na abertura, Luiz Martha destacou que reconhecer a relevância das questões climáticas é apenas o primeiro passo. Para avançar, essas pautas precisam integrar a estratégia das organizações, com atuação proativa dos conselhos e das lideranças. Joaquim Levy, presidente do conselho do Climate Finance Hub Brasil, também ressaltou o papel dos conselhos na orientação das empresas diante das oportunidades e responsabilidades relacionadas à transição climática, destacando o potencial brasileiro para a inovação automobilística. 

Ciência climática e riscos para os negócios 

Anders Levermann, professor de Dynamics of the Climate System no Potsdam Institute for Climate Impact Research, abordou as bases científicas das mudanças climáticas e ressaltou que a estabilização da temperatura global exige emissões líquidas de carbono iguais a zero. Também chamou a atenção para a intensificação dos eventos climáticos extremos e seus impactos sobre a economia. 

Entre os riscos para as organizações estão os desafios relacionados à continuidade dos negócios e à capacidade do mercado de seguros de lidar com eventos catastróficos. Nesse cenário, a transição climática deve integrar as decisões estratégicas, a gestão de riscos e o planejamento de longo prazo. 

O desafio da implementação da governança na agenda climática 

Christianne Maroun, diretora executiva do Climate Finance Hub (CFH), apresentou a publicação "Da Pauta Climática à Gestão Executiva: O que as avaliações do CFH Brasil de maturidade da transição climática revelam sobre governança, capacidade técnica e incentivos". 

O estudo analisa três dimensões da governança na agenda climática: supervisão das questões relacionadas ao clima, capacidade técnica das instâncias responsáveis e incentivos à gestão climática. Os resultados setoriais apresentados indicam que, embora a dimensão formal esteja mais avançada, a capacidade efetiva de implementação ainda é limitada. 

Christianne destacou também a importância de aproximar as áreas de sustentabilidade e finanças, para que os compromissos climáticos sejam incorporados às decisões de investimento e à gestão dos negócios. 

O tema foi aprofundado no painel Da Governança à Implementação: como empresas estão conduzindo a transição, com participação de Aletea Madacki, head de Sustentabilidade da Azul Linhas Aéreas; Fernanda Facchini, executiva de sustentabilidade e integração de negócios da Natura; e Christianne Maroun. A moderação foi de Tarcila Ursini, membra do conselho de administração do IBGC, embaixadora da Chapter Zero Alliance e membra do Comitê de Líderes pelo Clima do Chapter Zero Brazil. 

As participantes destacaram a necessidade de capacitar conselheiros e lideranças para tomar decisões fundamentadas sobre clima, além de fortalecer a integração entre as áreas das empresas. 

Na Natura, a sustentabilidade está integrada à governança e ao modelo de negócio. Fernanda Facchini ressaltou a importância de mensurar impactos, riscos e dependências, estabelecer ações concretas e envolver a cadeia de fornecedores. A executiva também destacou a comunicação como competência essencial para traduzir questões técnicas e mobilizar diferentes equipes. Para 2027, a empresa prevê integrar os comitês de sustentabilidade e inovação, favorecendo uma abordagem estratégica conjunta. 

Na Azul, Aletea Madacki explicou que a descarbonização da aviação envolve desafios específicos, relacionados ao uso de combustíveis fósseis e à segurança de voo. Entre as frentes de atuação estão a renovação da frota e a infraestrutura aeroportuária. Segundo ela, a sustentabilidade precisa contribuir para a geração de valor e a proteção contra riscos, exigindo o envolvimento de diferentes áreas da organização. 

O debate reforçou que a alta liderança deve assumir papel ativo nessa agenda. Conselhos preparados, estruturas que favoreçam o diálogo e decisões de investimento alinhadas aos objetivos climáticos são fundamentais para transformar compromissos em resultados. 

Bioeconomia e oportunidades para o Brasil 

O encontro também discutiu as oportunidades econômicas da transição no painel "Oportunidades da Transição: bioeconomia, agenda empresarial na COP e agenda climática global". Participaram Marcelo Behar, conselheiro da Power2Go e enviado especial para Bioeconomia da COP30 na Presidência da República, e Gabriela Blanchet, embaixadora da Chapter Zero Alliance e chair do Comitê de Líderes pelo Clima do Chapter Zero Brazil, responsável pela moderação. 

Gabriela destacou a combinação de biodiversidade, capacidade de produção de alimentos, recursos naturais, potencial energético e conhecimentos tradicionais que diferencia o Brasil. A discussão abordou como transformar essas vantagens em oportunidades para as empresas e em liderança efetiva na agenda climática global. 

Marcelo, por sua vez, ressaltou a importância de reduzir emissões, combater o desmatamento e recuperar áreas degradadas, além de mobilizar instrumentos econômicos para viabilizar essas transformações. Também apontou a bioeconomia como oportunidade para desenvolver modelos produtivos baseados em recursos renováveis e processos regenerativos. 

Para as organizações brasileiras, essa agenda pode fortalecer a resiliência, a competitividade e a geração de valor, desde que o potencial do país seja convertido em estratégias concretas. 

O papel dos conselhos na transição 

As discussões do Chapter Zero Brazil evidenciaram que a transição climática exige mais do que compromissos públicos ou estruturas formais. É necessário combinar conhecimento técnico, integração entre áreas, incentivos, indicadores e participação efetiva da alta liderança. 

Os conselhos de administração têm papel fundamental nesse processo, incorporando clima e natureza às decisões estratégicas, avaliando riscos e oportunidades e assegurando que as diretrizes se traduzam em investimentos e ações concretas. Para o Brasil, essa transformação também representa uma oportunidade de aproveitar seu potencial em bioeconomia, inovação e desenvolvimento sustentável. 

Assista ao evento na íntegra no canal do IBGC no YouTube clicando aqui.

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