Depois de mais de três décadas como CEO e membro de conselhos, há um padrão que aprendi a reconhecer: toda tecnologia que promete transformar a maneira como as empresas operam, passa, em algum momento, do entusiasmo à estratégia, para finalmente se tornar um tema de responsabilidade fiduciária. Com a inteligência artificial, esse movimento ocorreu em uma velocidade muito maior, causando um impacto sem precedentes na governança das empresas, superior ao dos ciclos tecnológicos anteriores.
Nos últimos anos, testemunhei empresas destinarem orçamento e atenção executiva a projetos-piloto de tecnologia e digitalização, até que chegamos à era da inteligência artificial.
Pela primeira vez, uma evolução tecnológica avança mais rapidamente do que muitas organizações conseguem antecipar seus usos, efeitos e riscos. A inteligência artificial já funciona em múltiplas aplicações, mas ainda existem desafios para sustentá-la com segurança frente a um arcabouço jurídico e regulatório cada vez mais complexo.
A pergunta que ouço com mais frequência de outros conselheiros e CEOs não é apenas se a IA entrega valor, mas como capturar esse valor sem criar para a empresa riscos operacionais, jurídicos e reputacionais não antecipados e que, portanto, ninguém aprovou formalmente. No caso da inteligência artificial, essa pergunta exige uma resposta ao mesmo tempo técnica e institucional. É neste ponto que a governança deixa de ser burocracia e se torna condição de escalabilidade.
Um conselho que trata inteligência artificial como mais uma pauta de tecnologia está lidando com uma fração pequena deste potencial problema. Governar Inteligência Artificial significa reconhecer que seu impacto atravessa finanças, jurídico, recursos humanos, compliance e operações simultaneamente, e que decisões tomadas isoladamente em cada uma dessas áreas, sem coordenação e uma governança dinâmica, se tornam rapidamente lacunas que, mais tarde, se transformam em passivo.
Há também uma urgência regulatória que os conselhos não podem se dar ao luxo de ignorar, sobretudo na América do Sul, onde a legislação de proteção de dados e as diretrizes sobre uso de algoritmos avançados ainda estão em formação, mas em passos acelerados. Esperar que as regras se consolidem para só então estruturar processos internos de governança não é prudência e sim uma aposta cara. E essa conta pode chegar rápido e de forma inesperada.
Há ainda uma terceira dimensão, menos discutida, mas talvez a mais determinante: a alfabetização tecnológica do próprio conselho. Não é necessário que um conselheiro se torne um cientista de dados, mas é preciso que saiba fazer as perguntas certas. Não há governança eficaz sobre aquilo que não se compreende pelo menos o suficiente para questionar.
Os projetos de inteligência artificial que de fato sustentam retorno sobre investimento e resistem ao teste da escala são os que nascem com segurança, rastreabilidade e supervisão humana como parte do desenho original, não como remendo posterior. Em setores regulados, esses elementos deixaram de ser controle burocrático e tornaram-se vantagem competitiva.
Viabilizar esse tipo de supervisão sem travar a operação é hoje uma demanda concreta do mercado. É necessário que haja visibilidade real sobre como os modelos são treinados, quais dados utilizam e como suas decisões podem ser governadas e auditadas quando algo sai do previsto ou coloca a empresa em risco de compliance.
É fundamental que as empresas usem uma plataforma de inteligência artificial que ofereça um arcabouço de controles adequado, proporcionando cobertura robusta de governança e evitando que situações de risco regulatório ou jurídico se transformem em riscos reputacionais e fiduciários para as empresas e seus representantes.
Com certeza, a inteligência artificial continuará redefinindo mercados e modelos de negócio em uma velocidade que a maioria das estruturas de governança ainda não acompanha. Mas a diferença competitiva, adiante, não estará no algoritmo mais eficiente nem nos modelos preditivos mais assertivos. Estará sim na qualidade da liderança que decide como irá governar todo este arcabouço de informações e processos, e na capacidade de implementar uma governança na qual os clientes, investidores e o próprio conselho possam confiar.
A inteligência artificial deixou de ser pauta de inovação. Tornou-se pauta de estratégia, gestão e governança. Os conselhos que entenderem agora essa distinção sairão na frente, não porque adotaram IA primeiro, mas pela segurança com que souberem governá-la.
Claudia Goulart é economista, pós-graduada em Psicanálise e certificada como conselheira de administração, com mais de 40 anos de experiência em liderança, finanças, gestão e governança. Após atuar por mais de 15 anos como executiva do setor financeiro e CFO, acumulou mais de duas décadas como CEO e conselheira em empresas de diferentes setores, liderando processos de integração pós-fusão, transformação cultural e implementação de estratégias de governança. Atualmente, é Managing Director e CFO da Semantix, empresa brasileira de data analytics e inteligência artificial com atuação internacional e tecnologia proprietária voltada à IA com governança.